Felicidade Breve

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Havia em mim um mundo caótico, poluído e impetuoso. Mas, um dia, em meio a tamanho caos, todo o mundo se aquietou e da quietude um novo céu e uma nova terra se formou. No novo céu, onde antes havia azul e cinza, cinza e azul, reinavam agora todos os tons de amarelo, dourado e laranja. A terra que se fez, mas que viva, mais que fértil, produzia de tudo que se é necessário e um pouco mais, porém, debaixo dela o antigo mundo ia soterrando-se, sumindo e em escombros morrendo. Entre o novo céu e a nova terra que agora havia, uma nova vida ia se fazendo. Plácida, estupenda. Apesar da calma, porém, ainda existia um ou outro saudosista. Poetas? Havia morrido todos! Anarquistas e revolucionários também.

E mesmo em meio ao esplendor do novo mundo o número de saudosistas com o tempo ia crescendo e nenhum sabia de que era feita a saudade que sentiam.

Nenhum era capaz de cantar, pintar ou explicar o que, afinal pelos céus, lhes causava tanta falta! Não era o caos, decerto, muito menos a dura poluição. Era algo mais profundo e essencial. Algo que outrora habitara em seus rins e que há tempos parecia morrer bem abaixo de seus pés. Até que, sem saber bem por que, um dia todo o mundo, ainda belo, laranja e fértil, amanheceu de luto e em negro luto adormeceu.

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Maria

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Digo meu nome
meu eu dita:

Maria Apática, deveriam chamá-la

Apática Maria, um outro diria

Maria fria, sem graça, sem rima!

Aceito sem reação
meu eu então imagina:

Que alguém assim diria:
Que queres da vida Maria?
Responda, me conte, me diga

Calada permito
que meu eu diga:

Quem sabe  eu queira apenas Maria ser
mas uma outra Maria
com graça, com rima!

Por fim, cruel
meu eu alucina:

Então, vem Maria!
Vem que te faço graça
de graça te desenho rimas!
Deixa, eu beijo essa tua boca fria!
Deixa, que eu te ame Maria!

Apresentação Imerecida, Desnecessária

Não mereço olhares, pausas e dramas. Quero apenas o cessar dos ruídos, a calmaria do silêncio. Desejo dormir e afundar-me em algo mais profundo que o pesado tédio que respiro. Quero um fogo sem dor que me envolva com chamas etéreas, translúcidas. Enoja-me desde muito tempo a passividade da vida que me pesa nas veias, em toda a extensão da minha pele e vaza no meu suor. Enoja-me a docilidade dos vivos. Então, hei de ir aos mortos, tocar-lhes a fronte fria, amontoar corpos, dobrá-los a minha vontade, tirar das órbitas nuas, dos peitos que não mais hão de arfar, a chama crua de tristeza e dor pra semear a minha vida.

Em colaboração ao blog Cirurgia Cerebral

nova cenestesia

Tentou ser rude. Tentou ao máximo dizer palavras terríveis que causassem dor a quem lhe feria. Tentou portar espadas e matar leões, dragões. Mas a espada era pesada demais para a sua boca e as palavras que matariam os tigres que lutavam pela sua carne, calaram-se. Sua arte não era a guerra. Que arte era a sua? Tomou as ruas como se fossem suas, encostou a testa suada sofrida no asfalto quente e tão podre quanto cinza. E ali, onde o suor mais deixou marcas, beijou o chão chamando para si a vida que se estendia submissa sobre os pés da cidade. Queria para si a força que se perdia ali. Torna-se a terra forte que sobrevivia ao peso do progresso. Queria aquela força, aquela dor, aquele ódio, aquela brutalidade. Deus! Queria aquela insensatez que  sabia  habitar ali, mesmo que os outros não percebessem e tentassem a todo custo arrancá-la de sua adoração, puxando-a para longe do chão. Não entendiam que ela não tinha medo dos carros e suas buzinas?  Que fossem tocá-las no inferno. O momento divino em que se encontrava devorava o medo da morte. O SEU medo da morte. Enroscou-se com o chão e a terra oculta sussurrou mistérios á seus ouvidos, chamando-a para mais perto dela. Como iria? De repente, tornou-se forte. Tomou a espada nas mãos, cravou-a entre as linhas da faixa de pedestres e um caminho se abriu. Entregou-se nua á terra, tornou-se parte de suas vísceras para jamais tornar a ser lançada á porcos. Deixou-se ser abocanhada, tragada pela natureza bruta que procurava.

O mesmo Sol, o mesmo tempo. A mesma rouquidão, os mesmos gestos. Horas, anos e séculos. Sem distinção entre um segundo ou a eternidade. Enojou-se da placidez divina com que fora coroada. Queria escrever algo visceral mas não havia nada em si para ser transformado em algo mágico como deveria ser. Onde estavam o sangue, a dor? Estavam no mesmo lugar de sempre logicamente, porém, não eram poéticos o suficiente dessa vez. Quieta desejou iludir-se novamente com o gosto pesaroso que aquela outra língua forçava a sua a sentir. Tentou iludir-se até mesmo com a TV, musicas e gestos. E nada. Havia tomado tanto gosto por sentir-se a parte do que compunha o cenário de sua rotina que até disso agora sentia nojo, repulsa, receio. Embriagou-se, de novo. E quase sufocou com as palavras que entupiam sua garganta mas que eram prematuras demais para deixa-la. E deixou-se deitada, estática, muda, plácida. Quase mergulhada em inexistência, sorriu ao vento, ao mar, a sua insensatez e ao seu tédio. Onde estavam o sangue, a dor, a poesia? Onde , meu Deus? Esperou ouvir uma resposta de seu ego divino. Não ouviu nada. Sorriu outra vez, ao vento, ao mar, ao infinito, ao seu tédio, a sua loucura e a sua diminuta lucidez.

Dedicado

Nota

Escolhestes  para ti o nome de uma constelação por desejar talvez, estar tão distante e em tão grande estado de beleza e poderio sobre os homens mortais que julgam conhecer os teus mistérios. Criastes o teu próprio gênesis prevendo o temível fim dos momentos, que tu sabes serem breves e sofríveis da sua existência. O teu altar de dor e medo continua erguido diante de ti, e a ele você se prostra dia e noite. Não te preocupas em ganhar galardões eternos, bem sei, que tua real vontade é torna-se parte da escuridão que te assola e um dia, quem sabe, torna-se maior do que a grandiosidade frívola que afeta nosso mundo através da miséria que tu consideras haver em teu ser.  Miserável plebeu devoto enclausurado e liberto, à ti, dedico a única coisa que posso oferecer: um lugar entre estas palavras que tanto amo.

Escreva para não chorar

E eu escrevo em desespero

o que desesperada não sei dizer mas

sou Babel e como tal incho o peito e

convulsiono de peito aberto

desmorono em desabalo vou ao chão

Escreve, escreve, escreve mais

Estive a escrever deixando os pontos em desalinho criando versos

me dividindo mas estirada

desmoronada Babel se cala Babel morrer


Ouse, aventure-se Escreve, escreve, escreve mais

Então reviva-me oh meu poeta oh minha palavra toma em mãos os

meus tijolos meus pedacitos já tão vividos de torre pagã 


Esqueça a tristeza Escreva para não chorar 

O que me pedes deixar o pranto e ser

do mundo ter na alegria minha

morada mas sou Babel desmoronada

sou tijolos de pranto sou pedacitos de

dor sou repetições Babel não é amor

Babel se cala Babel não pode Babel

morrer

 

*com conteúdo em itálico : http://cirurgiacerebral.wordpress.com/